
O conto O menino do Gouveia é narrado por Capadócio Maluco. Depois de fazer sexo com Bembem, este lhe conta a sua iniciação sexual, na adolescência, com um homem mais velho chamado Gouveia. A relação entre Bembem e Gouveia ocorre após o rapaz fugir de casa ao ser rejeitado pelo tio, por quem nutria um lascivo desejo.
Essa narrativa é considerada o primeiro conto homoerótico de caráter pornográfico escrito no Brasil. Daí a sua importância também histórica. No entanto, seu autor é desconhecido, pois preferiu assinar o texto com o nome de seu narrador, isto é, Capadócio Maluco.
| Homoerotismo. Desejo ou atração entre pessoas do mesmo gênero. |
É preciso ressaltar que a obra é repleta de estereótipos, condizentes com o pensamento da época. Além disso, as relações sexuais entre os personagens são explícitas e narradas, inclusive, com o uso de palavrões, o que lhe dá o caráter pornográfico. Além disso, o conto é direcionado a homens heterossexuais. Mas se você quiser ler essa narrativa, é só clicar aqui.
O menino do Gouveia é arte? Eis a questão
Essa não é uma pergunta fácil de ser respondida. E também não possui uma resposta definitiva. Eu sou daqueles estudiosos que entendem que a arte não possui uma função utilitária. Portanto, quando dizemos que a arte tem uma função estética, estamos dizendo que ela não é utilitária.
Se eu perguntar a você para que serve um manual de instruções de uma televisão, a resposta é óbvia, ou seja, ele indica como utilizar o aparelho. Mas se pergunto para que serve o livro Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, a resposta não é tão óbvia.
É preciso parar, pensar, e aqueles que, porventura, derem uma resposta, darão respostas diferentes umas das outras. Isso quer dizer que, se a arte fosse utilitária, todo mundo saberia o que fazer com o livro de Proust. No entanto, não o utilizamos para alguma coisa. E nem todos enxergam essa obra da mesma maneira.
Além disso, sou daqueles que defendem que arte é incômodo. Portanto, obras “agradáveis” têm uma função, já que existem para entreter. Então, chegamos aonde queríamos: um texto pornográfico é um texto funcional, já que ele serve para alguma coisa, isto é, provocar a excitação sexual do(a) leitor(a).
Resta saber se o conto de Capadócio Maluco provoca mais excitação do que incômodo. E o incômodo pode estar associado não só ao fato de ser uma obra homoerótica, o que desagradaria a alguns heterossexuais homofóbicos, mas também ao fato de contar a iniciação sexual de um adolescente de catorze anos com um homem mais velho.
Na época de sua publicação, no início do século XX, em 1914, a obra não deve ter provocado incômodos, já que foi publicada na revista O Rio Nu, que trazia contos eróticos ou pornográficos. Portanto, tinha um público específico: homens heterossexuais, mas curiosos.
Em conclusão, por ser um texto de mais de cem anos, inserido em uma cultura que vê as relações homoeróticas e pederásticas (no sentido grego) de forma um pouco distinta de como eram vistas no passado, o conto tende a ser transgressor e incômodo.
| Pederastia. “Na Antiguidade grega, a ‘pederastia’, ou seja, a relação sexual entre o homem mais velho, o ‘erastes’, e o rapaz jovem, o ‘erômenos’, era aprovada, incentivada e tomada como modelo de ética amorosa. Porém o leitor engana-se se projetar no passado os hábitos mentais do presente. A relação ‘pederástica’ não coincide com a moderna relação ‘homossexual’.” Jurandir Freire Costa, Folha de S.Paulo. |
Referências
ADORNO, Theodor W. Teoria estética. Tradução de Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 1988.
COSTA, Valmir. O menino do Gouveia: a história real que inspirou o primeiro conto homoerótico brasileiro de 1914. Projeto História, São Paulo, v. 69, p. 419-457, set./ dez. 2020.
OSBORNE, Harold. Estética e teoria da arte: uma introdução histórica. Tradução de Octavio Mendes Cajado. 4. ed. São Paulo: Cultrix, 1983.
Artigo escrito por: Warley Matias de Souza.